Categoria: Ensaios

Textos opinativos, reflexões e ideias sobre arquitetura, urbanismo e ofício.

  • Depende de quem está lá

    // QUINZENA 02 · HABITAR

    Todo projeto começa e termina no corpo — ou deveria.

    Arquitetura sempre foi uma leitura do espaço a partir do corpo. Sempre foi. Mas uma nova geração, criada dentro das telas, está perdendo essa referência — e não por má vontade. Simplesmente cresceu sem ela.

    Faço um exercício simples. Desenho três quadrados iguais e pergunto: qual é o maior? A resposta parece óbvia. Depende. Só depende quando um corpo entra no desenho — em pé, sentado, apoiado. Aí a mesma figura ganha três tamanhos diferentes. É o homem que dá escala às coisas. Sem ele, é apenas geometria.

    As telas de hoje projetam sozinhas. A IA renderiza imagens que convencem antes do projeto resolver o que precisa resolver. É bonito, é rápido — e é ruim para o arquiteto, se ele esquecer de perguntar “e a pessoa que vai morar aqui?”. Nenhum algoritmo carrega a história de quem vai habitar o espaço. Essa é a matéria que só o arquiteto humano traz. Continuo desenhando à mão para não esquecer disso.

    Croqui à mão mostrando quatro cenas com quadrados em perspectiva. Na parte superior, três quadrados iguais em cores diferentes (azul, vermelho e azul-escuro) sobre um plano hachurado. Abaixo, três cenas separadas mostram o mesmo quadrado ganhando escala pela presença humana: um quadrado ao lado de uma figura em pé, outro com uma figura sentada em cima, e outro com uma pessoa apoiada sobre ele.
    Croqui · Quinzena 02 · A escala aparece quando o corpo entra

    Onde ficou o homem nos projetos que fazemos hoje?

  • Muita informação, pouco conhecimento

    // QUINZENA 01 · VELOCIDADE / ATENÇÃO

    Nunca soubemos tanto e nunca paramos tão pouco para entender.

    Vivemos cercados de imagens. Abro o celular e, em segundos, atravesso mil projetos de mil lugares do mundo — fachadas, renders, premiações, tendências para o ano que vem. É muita informação. E, no entanto, sinto que conhecemos cada vez menos. Porque conhecimento não é o que passa pelos olhos; é o que fica depois que a gente para de olhar. E quase ninguém para mais.

    Aprendi, ao longo da minha trajetória, que arquitetura é o ofício mais lento que existe disfarçado de pressa. Um projeto bom não nasce do primeiro traço bonito — nasce de uma pergunta repetida muitas vezes: para quem é isto? como isto vai ser construído? como a pessoa vai viver aqui dentro? A Bauhaus me ensinou que nada é por acaso, que tudo se resolve antes de começar. Mas resolver antes exige uma coisa que está em falta no mundo: tempo para pensar. Silêncio. Reflexão. O contrário exato da rolagem infinita.

    Não chego aqui sozinho. Carrego comigo uma linha mestra de pensamento que me acompanha há anos: Louis Kahn, que perguntava ao próprio material o que ele queria ser, e que punha o homem e a luz no centro de tudo; Aldo Rossi, que me ensinou que a cidade é a nossa memória construída, e que nada do que erguemos é inocente diante do tempo; e a Bauhaus, que uniu arte e técnica num só gesto, sem separar o belo do útil. É com essa experiência que eu olho o presente — e é com ela que vou pensar em voz alta, aqui, a cada quinze dias.

    Por isso esta página existe. Não para te dar mais uma imagem para deslizar e esquecer, mas para oferecer o oposto: uma ideia de cada vez, para a gente segurar junto e olhar com calma. Trago a minha experiência não como quem tem todas as respostas, mas como alguém que ainda quer fazer mais e melhor — e acredita que pensar devagar, hoje, é quase um ato revolucionário. Num tempo de muita informação e pouco conhecimento, talvez o maior luxo seja simplesmente este: parar para refletir.

    Croqui à mão em marcador preto com lavagens de azul, marrom e verde. Mostra uma cidade densa com edifícios verticais, um edifício comercial em azul ao centro, uma figura humana minúscula caminhando, uma árvore solitária à direita e um caminho serpenteante no primeiro plano.
    Croqui · Quinzena 01 · A cidade observada de longe

    E você — quando foi a última vez que parou para realmente olhar o lugar onde vive?